Mandy:Is funny how beautiful people look when they´re walking out the door...
quarta-feira, 30 de maio de 2007
É um post de chegada. Acabei de chegar. Acabei de partir. Trouxe comigo coisas que levei quando parti. Touxe comigo coisas que me enviaram quando estava longe. Acabei de reencontrar. Pessoas muito longas e quentes. E conversas inconsequentes e fumadas. Amizades-amor. Espaços preenchidos e mãos que nos agarram sem maldade para ficarmos mais um pouco. Enchi a mala de livros para me enganar as saudades que vou sentir. As palavras que trouxe chegarariam até à próxima viagem se as saudades fossem ingénuas, mas são meninas espertas. Usam o truque do silêncio e a fidelidade da presença. Também sei que essa cidade não pode ser definitiva. Lisboa não é espaço definitivo por esse sentimento português de incrustada expectativa de implosão nacional. Por outro lado, não desejaremos morrer em Londres, porque a alma da cidade é uma fera ferida que sonha com o silêncio absoluto do fundo do rio. Rimos estranhamente alto, mas não somos pessoas de incomodar. Há outros lugares no mundo.
Descia pelo passeio público quando o vi. Foi a sua esqualidez e o tamanho das suas barbas que me fizeram parar em si o olhar. O meu ângulo de visão não me permitia ver onde focava a atenção, só sei que a sua expressão era muito atenta, quase deslumbrada e solene. Pensei que pudesse ser uma borboleta rara que o homem contemplava. Daquelas com asas grandes e cores luminosas. Fui-me aproximando. Um sorriso acendeu-se naquela barba encardida. Como um segredo de criança que se revela. Leva uma mão à barba e faz cócegas no queixo. Uns passos depois descobri que se via reflectido no vidro de uma montra. Estava dolorosamente feliz por se reencontrar.
Deixo esta cidade à medida que a luz diminui de intensidade na pressa de morrer. O dia foi demasiado comprido. Há um tempo ouvi na televisão, uma centenária senhora que quando questionada sobre o próximo aniversário, respondeu que era tempo de morrer, que já tinha vivido demais. Tanto tempo que se lembrava de duas guerras e da morte de filhos e netos. O dia de hoje foi uma centenária senhora. Noite vem depressa.