domingo, 1 de julho de 2007
quarta-feira, 30 de maio de 2007
Também sei que essa cidade não pode ser definitiva. Lisboa não é espaço definitivo por esse sentimento português de incrustada expectativa de implosão nacional. Por outro lado, não desejaremos morrer em Londres, porque a alma da cidade é uma fera ferida que sonha com o silêncio absoluto do fundo do rio. Rimos estranhamente alto, mas não somos pessoas de incomodar. Há outros lugares no mundo.
terça-feira, 22 de maio de 2007
quarta-feira, 16 de maio de 2007
Há quanto tempo
Leva uma mão à barba e faz cócegas no queixo.
Uns passos depois descobri que se via reflectido no vidro de uma montra.
Estava dolorosamente feliz por se reencontrar.
domingo, 6 de maio de 2007
Deixo esta cidade 1
O dia de hoje foi uma centenária senhora. Noite vem depressa.
Diz-me como amas dir-te-ei como escreves
Dantes era assim, escolhia melhor todas as palavras e estas tinham realmente um brilho incomum. Um brilho nocturno. Agora estou sempre a começar histórias que não acabo, como se tivesse problemas de memória e empilhar passos da narrativa fosse tarefa hercúlea. Talvez me foque em pormenores como olhares, palavras soltas ou sons marginais e não quero mais nada com o devir.
Percebi que nunca recusei nenhum amor e que ultimamente tenho sentido demais. Isso faz mao ao que escrevo. Há que recusar amores de vez em quando para tornar mais puros aqueles que escolhemos viver. Não de uma forma intencional, claro. Por declinação delicada e intuitiva. O objectivo é fazer brotar uma fonte ígnea de credibilidade, de profundidade. Essa será a prova de que o sujeito que escreve está inclinado sobre a matéria sobre a qual pensa e se alheia propositadamente de muitas outras coisas que se passam à sua volta.
Simultaneamente e em retrospectiva, o sujeito passa a apresentar uma consciência de ter sido negligente com o mundo, por estar concentrado num certo assunto e desconcentrado de outros. Continua a ser alheio ao mundo presente, sem no entanto ter essa consciência. Não o podemos chamar de inconsciente, mas dizer que a consciência sofre um delay.
É uma consciência atrasada da culpa que dá seriedade ao que se escreve.
Pode escolher-se pacificamente não ir ver aquele concerto ou não ir almoçar aquele amigo, mas não viver certas possibilidade de amor que se nos oferecem não é assim tão pacífico. Recusar essas possibilidades é sempre desperdiçar tentativas de se ficar emocionalmente mais completo.
Ora, só à posteriori é que o próprio reconhece estas recusas, conciencializando-se delas com um atraso.
Não há ninguém que dependa tanto desta culpa como o sujeito que escreve. O sujeito que escreve precisa de sentir que é o homem do leme, mesmo sabendo que não há nada mais ilusório do que isso.
A necessidade de amor não pode ser superior à vontade de o viver.
O que escreve deverá ser, principalmente, um reactor de vontades e não um escravo de carências.
sábado, 21 de abril de 2007
Old Joy

São dois velhos amigos que já não se vêm assim tanto (um deles já é quase pai e o outro teima em não crescer) seguem viagem rumo às Cascade Mountains, em Oregon. Procuram uma nascente de água quente. Sem o saber ou querer procuram quem foram, quem são e onde vão. Uma busca espiritual que dura um fim-de-semana. Old Joy é a alegria nostálgica do encontro, a constatação de que a cumplicidade não se esgota, nem acaba, mas antes sofre o poder transformador do tempo.
Tão concentrados que andamos na conceptualização de maniqueísmos, surpreendemo-nos com a dica da personagem de Will: Sorrow is nothing but worn out joy.
A tristeza não é assim tão contrária à alegria. É filha dela.
tudo por um pão mal-cozido
voltar vai custar-me confidenciava-me.
a mulher da padaria já sabe o pão que eu gosto... é daquele branquinho...
férias com os cavalos
nestas férias, por causa da chuva, a rita adiou a ida à praia. ficou com os cavalos. a penteá-los. a conversar com eles. lembrou-se de ir buscar o rádio antigo de cassetes e de pôr a tocar uns tangos roufenhos.
as férias acabaram. e os cavalos têm saudades de ouvir tocar o pequeno rádio.
sexta-feira, 20 de abril de 2007
rosa dos ventos
como numa noite de festa
onde vamos?
há na existência da espessura
das pessoas como eles
uma verdade e cavalos suspensos
uma verdade substantiva e um céu precipício
até ao fim dos beijos
de papel
escrevem-se monólogos
e depois
queimamo-los vivos
quantos pontos cardeais há no reflexo
branco
da pele frágil dos teus lábios?
posso rumar a norte
e achar a loucura
um milagre fantasma onde as ondas chegam nuas e
aos pares
a loucura tansforma-me num doce ser de cabeceira
a sul,
a consequência de amar a água
a água que caminha e pinga
que pinga
em terras de seca e não se sabe
um velho de cabelos longos promete-me
que o futuro são árvores altas
e o peito com que respiram
a este
o sol
com ninguém
e nada lá dentro
sacode os seres do ar para sempre
até à noite do outro século
a oeste
já ouvi um homem a barulhar o vento
quarta-feira, 18 de abril de 2007
sonos em dia
estou a pedir-te que não morras
não te emprestes ao sono
estou apenas a pedir-te que não adormeças
segunda-feira, 9 de abril de 2007
terça-feira, 3 de abril de 2007
vidas para embalar
neve. faça muito frio. calor.
apesar de ainda não ter vivido nesta casa dias que queimem, em que o vento seja uma lembrança de outros tempos. sei que será igual.
os homens não voavam antes de Newton ter baptizado a gravidade.
igual à água. que já era húmida antes de se chorar. antes de se nascer.
ponho-me à janela. falando com esse corpo do céu, a mãe da noite que tudo escurece para poder ser bebida com solidão.
é que eu consolo-a.
para que não sinta tanto a distância.
contando-lhe histórias.
dos filhos todos da terra.
todas as noites.
me encontro com
Inauguração
O jardim do Torel acontece em baixo, com as suas árvores.
Hoje brindámos ao meu quarto com Real Lavrador e comemos tostas com doce de castanha e baunilha.
Falámos de teatro. Do que há-de ser o Alfredo do gato.
Quem sabe se um homem que experimenta várias mortes até se ficar pela que mais lhe agrada.
segunda-feira, 2 de abril de 2007
Lá na terra
Às vezes tenho uma raiva à minha Otília, eu magro tao magro que estava e ela nunca mo disse. Só um dia destes em que estava no banho, é que percebi que os ossos dos ombros faziam força para sair e a pele estava mesmo quase a ceder. Eu não ia dizer-te que estavas muito magro, não podia.
Não quero ambulâncias à minha porta, já disse. Lá em casa tenho uma caçadeira. Sou uma pessoa pacífica, não é para fazer mal a ninguém. É mais para me defender.
E eu juro que se ambulâncias à minha porta, eu faço uma loucura.
O campo deu-me tudo. E matou-me a fome. Fui explorado.
Em tempos tive de sair de noite e ir roubar favas e batatas. E não era para vender. Era para comer.
Hoje, enfiar a enxada na terra, ver a chuva cair, arrancar as ervas daninhas, é tudo o que sei fazer. Seria triste não seria? Ver os meus vizinhos a chegarem com sacos de plástico cheios de hortaliça para a Otília fazer sopa.
Era bonito, mas era triste. Não há nada com as batatas da minha terra.
sexta-feira, 30 de março de 2007
rasgo na água um caminho puro,
na concentração certa
de saliva da minha boca
invisível
o amanhã de amanhã
é quando me solto da alma, e as razões amadurecem
túrgidas mas vulgares
seres de pele
sobre pele
sobre todas as variedades
de loucura
que existe
os
amantes dos mortos
permanecem
de pé e de mãos atadas como pássaros que não
descansam os olhos
os sentimentos que me levam
têm o sopro da cal
o
barulho rente ao alto mar
sou eu a sonhar
que voo
roubo aos barcos finitos
os homens que não têm dentro
o saber dos homens do mar
digo eu, a reflectir a dor por detrás do sangue
Posso fugir?
tudo para acreditar mesmo
e jogar fora a religião ferrugenta
horizontes de adeus
pôr do sol na madrugada
tanta sede
quando chega prostituta
a hora de adivinhar a dedicação dos monstros
porque é no princípio do peito que as coisas se sabem
o veneno anoitece de luz
apago a ordem da estações
das linhas
de comboios
que não apanhei
o que se consegue é um esquecimento dormente
de que no fim é a morte.
mais difícil
é ser um homem do mar
permanecendo na terra
quinta-feira, 29 de março de 2007
raparigas e respectivas armas
Jean-Luc Godard
a Joana e uma pedra
a Rita e as baquetas da bateria
a mulher polícia e o cassetete
a prostituta e os seus olhos verdes
a Maria e um canivete suiço
a prima da Inês e a sua gravata
quarta-feira, 28 de março de 2007
Uni-vos Bichos de Estimação
Chorrilho diário de insultos dirigidos a uma cadela chegam-me pela janela. Uma vizinha com voz de velha insuportável, ofende, com pequenas pausas, um animal que não vejo mas que imagino também velho, incontinente de esfíncteres, sedento de festas e com um cheiro nauseabundo a cão cansado.
Hoje foi assim a missa das 17:
Que grande merda palavra de honra. Já não tem por onde se lhe pegue. Cadela porca. Estafermo de bicho. Tá quieta pá. Sai daí Lady sai daí. Desaparece do pé de mim, eu já nem te vejo. Só fazes é mal. Vai emboraa, vai embora.
Peguei num livro chamado o frio que faz na cama
Os nomes de livros são entidades abstractas. Metáforas. Longas como longos braços de árvores de inverno. O frio que faz na cama. É uma boa metáfora. Não é preciso ser noite. Não é preciso ser inverno. Pois não. São as franjas, as franjas da poltrona avermelhada de veludo muito gasto que me chamam a atenção e as mãos dos homens todos que passaram pelo meu corpo a brincar. Já não tenho idade. A brincar as mãos são frias e os olhos nas horas escorrem ao contrário é de noite e depois de tarde e depois de manhã. Já aconteceu que tivesse saído para a rua para não voltar. Para não dormir. Sozinha. Os vizinhos que me olham de soslaio e me deixam o elevador sem espelhos para que me não recuse com o fundo da alma o minha boca apagada. Pontualíssimo. Aconteceu-me de repente que já não tenho idade para brincar. Duvido principalmente dos homens bonitos. Dos homens altos e elegantes. E simpáticos. São quase estatuetas decorativas à escala real.
Kms ilimitados???
Onde posso ir quando escrevo. Até onde? Por que estrada?
O sítio onde se chega quando se escreve é ermo e sou tão suja na forma como o faço, em todos os rituais físicos antes de me entregar à derradeira tarefa da escrita.
Por mim escreveria para sempre como uma bola que desliza numa superfície sem atrito. Sem parar, sem respirar, amando na escrita, vivendo para ela.
E há a música sentimental que a motiva, as vivências.
Muitas pessoas. Sempre sempre a acontecer-nos. Sempre sempre a mudar a nossa direcção, ao modo de condições climatéricas, de incontornáveis que são. Fazendo-nos escolher um casaco mais quente ou uma blusa mais fina. Convidando-nos a sair de guarda-chuva.
E quem somos nós, afinal, no meio de tanta gente, depois de tanta gente, antes de tanta gente. Gente que nos toca. Gente com quem não trocamos palavras sérias. Gente infeliz ou metendo cunhas para o deixar de ser. Gente a quem dizemos palavras que não pretendíamos e que, apesar de tudo nos escaparam. Nunca nos esquecemos dessas pessoas.
O que temos para dizer enquanto seres humanos? Numa dimensão pessoal e colectiva?
Será o que temos para dizer é substancialmente diferente nessas duas dimensões?
respigado da colheita de janeiro
Durmo todos os dias em sítios diferentes da casa. Ora no chão, ora suspensa. No quarto ou na marquise. Na cozinha. E todas as noites os sonhos são diferentes. Em cor, em peso, em distância e em lugar.
Esta noite convoquei alguém do passado.
Acordei perturbada, enrolada no tapete do hall de entrada.
Éramos felizes. Havia um elevador antigo. Uma luz baixa sobre as nossas figuras. Dávamos as mãos. Sexo inconsequente.
Os olhos dele estavam cheios de claridade.
Depois acordei para a sinfonia da existência. À previsão de cada nota, à inevitabilidade dos compassos e da ordem das explosões épicas.
À impossibilidade do tempo se fazer em terra redonda onde de todos os pontos de partida se poderia chegar a todos os lugares.
Fossem desertos gelados, mares, cidades.
Ou terras cálidas.
domingo, 25 de março de 2007
o louco e os livros
um senhor de meia idade, com um ar desprendido do mundo, atravessa a praça em direcção a esse paraíso. hipnotizado.
na mão direita carrega um saco desportivo aparentemente sem volume, portanto quase vazio.
aproxima-se da tenda como uma criança corre para o mar no primeiro dia de praia do ano.
espreita muito sério e de olhos bem abertos através das janelinhas de plástico.
Tantosss livros!
sorri em voz alta.
pergunta-me se sei onde é a entrada da feira.
quarta-feira, 21 de março de 2007
equinócio
de ave negra, plana
no fim do dia
na primavera
os telhados as vozes
incham de água
quanto tempo é?
para trincarmos maçãs
que vêm com a maré?
flores de terra
luz entra pelos olhos
há-de vir o amor
segunda-feira, 19 de março de 2007
origem
para olhar a terra a partir da terra
o mar
que só vê mulheres muito nuas nas suas franjas
(anjos em dias festivos)
é cego e perfeito.
a consequêcia de começar a
vi ver
nasce das ondas invernosas
brancas brancas
ao serem depositadas
exangues e orfãs
nos bancos de areia
mutismo
o olho esquerdo o direito e eu
são como câmaras obedientes e
esféricas
principalmente à noite.
são mesmo de verdades,
os meus olhos.
de mentira sou eu,
um balão de nada comprimido
são mesmo de verdade
os meus olhos.
este é um poema que não pode falar.
ninguém me iria crer.
domingo, 18 de março de 2007
quinta-feira, 15 de março de 2007
desconversações
Neste jardim.
Descoversar muito, até o peito me doer.
Não dizer mesmo nada.
Ficar com a cara de quem pensa em ti. A roubar os horizontes à paisagem.
Uma expressão que nada reflecte para suspender o silêncio.
Eu não queria dizer isto.
Que há vagar e há frio.
O sol pôs-se. Justamente atrás da árvore mais velha do jardim.
As pessoas que durante a tarde povoaram a sombra das árvores e o relvado quente foram-se retirando.
Um casal velho. Um rapaz que ria. Um casal novo cheio de beijos para dar. Uma mãe e crianças depois da escola. Uma banda com um contrabaixo.
Podemos dançar mãe??? Deixa-nos dançar um bocadinho!
Está bem, mas rápido que ainda temos de ir buscar o Estevão.
Deslizaram para fora da moldura.
Eu fiquei. Sem testemunhas.
A desconversar para melros e canções de vento e para um homem que de uma janela chamava a Patríciiiiiiiiaaaaaaa
mas para todos os efeitos não conta como testemunha porque estava um bocado longe.
Desconversei tudo.
Tudo.
Quando passou uma hora sobre a partida da última alma do jardim, tendo esgotado todas as desconversações, também eu parti.
Exausta.
A espera
Mas ela não veio e ele envelheceu. Um dia alguém tocou, levemente, à porta e ele, apavorado, fugiu, escondendo-se atrás do armário."
Tonino Guerra
terça-feira, 13 de março de 2007
etna
que me deixaste esta fotografia no email.
para que lhe pudesse tecer uma versão.
se bem me lembro era isso.
....
o mundo não é um lugar diferente do que já foi.
há retóricas que se reciclam.
crianças.
o essencial, que é o estar nos sítios só podendo vestir um corpo de cada vez, permanece.
quando se é criança é-se. e não se pode ser mais nada ao mesmo tempo.
mãeee
aquela montanha cospe fogo?
cospe, mas não é fogo, são castanhas.
o que é que é castanho mãe?
é o fruto. de que se alimentavam as famílias pobres.
tu dizes que nós somos pobres. porque é que não comemos daquilo?
porque há peixe cozido. com bróculos.
eu quero saber ao que sabem. as castanhas.
depois não jantas.
janto sim. quero uma castanha. quero ver a montanha a cuspir.
segunda-feira, 12 de março de 2007
"the dreamers"
que é uma imagem
uma margem só de corpos
alinhados
alinhavados
uns nos outros
muitos corpos
sentidos a sério
rasgados abertos
rios
fogem
desse centro
fonte
corpos esses não ficam secos
existem numa voz própria
esta vez e amanhã e depois das viagens
cantam
o original
vagar do
orgasmo
(mesmo antes de nascerem
os corpos segredavam-no)
é deus
a água
é deus
quem sabe
palavrar o silêncio
dolente
é deus
rios que chegam
ao vales de pedra
soprados
os rios lívidos
não param de chegar
ao encontro
marcado
domingo, 11 de março de 2007
geologias
vejo de tudo, um pouco.
nesses olhos de minério-espelho.
sábado, 10 de março de 2007
fungos por amor
não reconheci a caligrafia, que perguntava, num traço muito miúdo
comerias por mim cogumelos venosos?
encontramo-nos amanhã, às quatro da tarde?
traz contigo uma resposta.
não resisti a perguntar-lhe de onde vinha aquilo.
o seu namoradinho dos 12 anos.
reproduzindo uma jura de amor com fungos à mistura que tinha visto na televisão.
Uma Casa na Pradaria ou uma série do género.
e tu mãe que lhe disseste?
que sim, claro.
mas sabia que nunca comeria cogumelos venenosos nenhuns, na hora da verdade.
quarta-feira, 7 de março de 2007
vários medos de crescer
que me caissem os dentes todos de uma vez
tinha medo de ficar da altura do Mário e
de bater com a cabeça no céu
tinha medo que a cama deixasse de me servir
e tinha medo de polícias e lobos à paisana
explicações
para
escancarar
a rua
os dias de vento não cabem nessa solidão
que vi
seria preciso um bolso maior
onde se pudesse acamar a terra
de cinco continentes e ainda
de
um sexto
que está por descobrir
atrás do
sol
abri essa porta
para
abreviar
as escrituras
gritar salmos
chorar picando alhos
tomar café com bruxas
abri essa porta
para
a deixar
aberta
terça-feira, 6 de março de 2007
aguaceiros nas regiões altas
quando numa noite
saiu à rua
os braços em forma de céu,
acabando por não acabar
em abismos desmaiados
no peito de homens
dizem que essa mulher sem morte não (a) tem
nome
chorava uma dor de paz
estórias pequenas
e arrumadas que lia de cor
a sua voz lisa
entre meteoros
de fúria
dormente
avançava
há quem diga que é difícil contar as
horas pelos seus dedos
nessa noite
o tempo já passou
porque no seu corpo
o tempo está sempre
muito perto do princípio
do medo
ninguém sabe o paradeiro
à mulher
nunca ninguém lhe ouviu
a morte
Saiu furado
Pensei que poderia ter tudo nada tendo.
Pondo o amor entre aspas, procurando vidas onde me pudesse encaixar e voar delas para fora ao final de cada dia.
Como o teatro.
Pensei que viesse a ser poeticamente dramático.
Anterior à água. E ao ar. E aos beijos.
Até vago.
E o pior amor é o que não sai da gente.
Em proporções multiplica-se por mil, e na tontura o céu quase que se desequilibra em cima dos telhados e nos deixa para sempre na noite.







