domingo, 1 de julho de 2007

Velvet Goldmine (1998)


Mandy: Is funny how beautiful people look when they´re walking out the door...


quarta-feira, 30 de maio de 2007

É um post de chegada. Acabei de chegar. Acabei de partir. Trouxe comigo coisas que levei quando parti. Touxe comigo coisas que me enviaram quando estava longe. Acabei de reencontrar. Pessoas muito longas e quentes. E conversas inconsequentes e fumadas. Amizades-amor. Espaços preenchidos e mãos que nos agarram sem maldade para ficarmos mais um pouco. Enchi a mala de livros para me enganar as saudades que vou sentir. As palavras que trouxe chegarariam até à próxima viagem se as saudades fossem ingénuas, mas são meninas espertas. Usam o truque do silêncio e a fidelidade da presença.
Também sei que essa cidade não pode ser definitiva. Lisboa não é espaço definitivo por esse sentimento português de incrustada expectativa de implosão nacional. Por outro lado, não desejaremos morrer em Londres, porque a alma da cidade é uma fera ferida que sonha com o silêncio absoluto do fundo do rio. Rimos estranhamente alto, mas não somos pessoas de incomodar. Há outros lugares no mundo.

terça-feira, 22 de maio de 2007

Poemacto

Criar é delicado.
Criar é uma grande brutalidade.


(Herberto Helder)

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Há quanto tempo

Descia pelo passeio público quando o vi. Foi a sua esqualidez e o tamanho das suas barbas que me fizeram parar em si o olhar. O meu ângulo de visão não me permitia ver onde focava a atenção, só sei que a sua expressão era muito atenta, quase deslumbrada e solene. Pensei que pudesse ser uma borboleta rara que o homem contemplava. Daquelas com asas grandes e cores luminosas. Fui-me aproximando. Um sorriso acendeu-se naquela barba encardida. Como um segredo de criança que se revela.
Leva uma mão à barba e faz cócegas no queixo.
Uns passos depois descobri que se via reflectido no vidro de uma montra.
Estava dolorosamente feliz por se reencontrar.

domingo, 6 de maio de 2007

Conversations with an angel 2




If you are an agel, why don´t you fly?

The fuel is over.

Deixo esta cidade 1

Deixo esta cidade à medida que a luz diminui de intensidade na pressa de morrer. O dia foi demasiado comprido. Há um tempo ouvi na televisão, uma centenária senhora que quando questionada sobre o próximo aniversário, respondeu que era tempo de morrer, que já tinha vivido demais. Tanto tempo que se lembrava de duas guerras e da morte de filhos e netos.
O dia de hoje foi uma centenária senhora. Noite vem depressa.

Conversations with an angel 1



Angel, how do you get there?

By tube.

Diz-me como amas dir-te-ei como escreves

Antes de ser quem sou, este ser de ossos e lembranças concretas como árvores, sabia explicar o que se passava comigo e com os outros, muito melhor do que agora. Com facilidade falava de processos naturais, desde o vôo das abelhas ou do acontecimento da concepção como se se tratasse do processo de pensar, partindo de premissas, ascendendo numa febre primordial e concentrada até atingir o calor confortável de uma conclusão ou a satisfação temporária de não a conseguir atingir.
Dantes era assim, escolhia melhor todas as palavras e estas tinham realmente um brilho incomum. Um brilho nocturno. Agora estou sempre a começar histórias que não acabo, como se tivesse problemas de memória e empilhar passos da narrativa fosse tarefa hercúlea. Talvez me foque em pormenores como olhares, palavras soltas ou sons marginais e não quero mais nada com o devir.
Percebi que nunca recusei nenhum amor e que ultimamente tenho sentido demais. Isso faz mao ao que escrevo. Há que recusar amores de vez em quando para tornar mais puros aqueles que escolhemos viver. Não de uma forma intencional, claro. Por declinação delicada e intuitiva. O objectivo é fazer brotar uma fonte ígnea de credibilidade, de profundidade. Essa será a prova de que o sujeito que escreve está inclinado sobre a matéria sobre a qual pensa e se alheia propositadamente de muitas outras coisas que se passam à sua volta.
Simultaneamente e em retrospectiva, o sujeito passa a apresentar uma consciência de ter sido negligente com o mundo, por estar concentrado num certo assunto e desconcentrado de outros. Continua a ser alheio ao mundo presente, sem no entanto ter essa consciência. Não o podemos chamar de inconsciente, mas dizer que a consciência sofre um delay.
É uma consciência atrasada da culpa que dá seriedade ao que se escreve.
Pode escolher-se pacificamente não ir ver aquele concerto ou não ir almoçar aquele amigo, mas não viver certas possibilidade de amor que se nos oferecem não é assim tão pacífico. Recusar essas possibilidades é sempre desperdiçar tentativas de se ficar emocionalmente mais completo.
Ora, só à posteriori é que o próprio reconhece estas recusas, conciencializando-se delas com um atraso.
Não há ninguém que dependa tanto desta culpa como o sujeito que escreve. O sujeito que escreve precisa de sentir que é o homem do leme, mesmo sabendo que não há nada mais ilusório do que isso.
A necessidade de amor não pode ser superior à vontade de o viver.
O que escreve deverá ser, principalmente, um reactor de vontades e não um escravo de carências.

sábado, 21 de abril de 2007

Old Joy


A minha segunda tentativa Indie 2007, desta vez feliz e acordada. Old Joy de Kelly Reichardt. O menino que está debaixo do saco de campismo é mesmo o Will Oldham, cantautor de matiz folk.
São dois velhos amigos que já não se vêm assim tanto (um deles já é quase pai e o outro teima em não crescer) seguem viagem rumo às Cascade Mountains, em Oregon. Procuram uma nascente de água quente. Sem o saber ou querer procuram quem foram, quem são e onde vão. Uma busca espiritual que dura um fim-de-semana. Old Joy é a alegria nostálgica do encontro, a constatação de que a cumplicidade não se esgota, nem acaba, mas antes sofre o poder transformador do tempo.
Tão concentrados que andamos na conceptualização de maniqueísmos, surpreendemo-nos com a dica da personagem de Will: Sorrow is nothing but worn out joy.
A tristeza não é assim tão contrária à alegria. É filha dela.


tudo por um pão mal-cozido

a sofia vive em barcelona.
voltar vai custar-me confidenciava-me.
a mulher da padaria já sabe o pão que eu gosto... é daquele branquinho...

férias com os cavalos

tenho uma amiga. uma amiga que se ocupa com a maternidade. está em casa, vai buscar o filho à escola e faz-lhe companhia a ver os simpsons. e espera. pelas férias e pelo sol para ir para a praia. o marido gosta de cavalos. o dinheiro que faz com a loja que têm nesse país estrangeiro destina-se aos cavalos dele e às férias dela. ela não percebe os cavalos assim como ele não percebe a areia quente e os pés inchados e a dificuldade em estacionar.
nestas férias, por causa da chuva, a rita adiou a ida à praia. ficou com os cavalos. a penteá-los. a conversar com eles. lembrou-se de ir buscar o rádio antigo de cassetes e de pôr a tocar uns tangos roufenhos.
as férias acabaram. e os cavalos têm saudades de ouvir tocar o pequeno rádio.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

rosa dos ventos

a imaginação de coisas vivas e brancas
como numa noite de festa
onde vamos?

há na existência da espessura
das pessoas como eles
uma verdade e cavalos suspensos
uma verdade substantiva e um céu precipício

até ao fim dos beijos
de papel
escrevem-se monólogos
e depois
queimamo-los vivos

quantos pontos cardeais há no reflexo
branco
da pele frágil dos teus lábios?

posso rumar a norte
e achar a loucura
um milagre fantasma onde as ondas chegam nuas e
aos pares

a loucura tansforma-me num doce ser de cabeceira

a sul,
a consequência de amar a água
a água que caminha e pinga
que pinga
em terras de seca e não se sabe

um velho de cabelos longos promete-me
que o futuro são árvores altas
e o peito com que respiram

a este
o sol
com ninguém
e nada lá dentro
sacode os seres do ar para sempre
até à noite do outro século

a oeste
já ouvi um homem a barulhar o vento

quarta-feira, 18 de abril de 2007

sonos em dia

não te dês ao sono
estou a pedir-te que não morras

não te emprestes ao sono
estou apenas a pedir-te que não adormeças

segunda-feira, 9 de abril de 2007

era uma vez alguém que nasceu. podia ser um rapaz. esse rapaz cresceu. e a sua missão era lembrar todos os hábitos da humanidade. primeiro os instintos, depois reencontrou as maneiras infinitas de explorar a natureza e as artes da guerra e de alguma paz nos intervalos. reaprendeu a amar, a esquecer e a ter alguns filhos. depois passou o resto da vida tentando deslembrar-se e ser mais vivo. esquecendo-se de uma coisa por dia, chegou a um ponto em que era um rapaz. parecido com o rapaz que tinha nascido. quando esqueceu todos os hábitos da humanidade tinha-se transformado numa rocha da praia que viveu para sempre.

terça-feira, 3 de abril de 2007

vidas para embalar

como um ritual. todas as noites.
neve. faça muito frio. calor.
apesar de ainda não ter vivido nesta casa dias que queimem, em que o vento seja uma lembrança de outros tempos. sei que será igual.
os homens não voavam antes de Newton ter baptizado a gravidade.
igual à água. que já era húmida antes de se chorar. antes de se nascer.
ponho-me à janela. falando com esse corpo do céu, a mãe da noite que tudo escurece para poder ser bebida com solidão.
é que eu consolo-a.
para que não sinta tanto a distância.
contando-lhe histórias.
dos filhos todos da terra.
todas as noites.
me encontro com
a lua de verdade.

Inauguração

A lua está de sentinela, a caminho do alto céu (se alto mar existe, alto céu também se pode dizer).
O jardim do Torel acontece em baixo, com as suas árvores.
Hoje brindámos ao meu quarto com Real Lavrador e comemos tostas com doce de castanha e baunilha.
Falámos de teatro. Do que há-de ser o Alfredo do gato.
Quem sabe se um homem que experimenta várias mortes até se ficar pela que mais lhe agrada.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Lá na terra

Lá na terra tenho uma horta. A esta altura a horta já está morta. As batatas estão podres, porque ninguém as apanha. Quando eu sair daqui, deste hospital, volto à terra.

Às vezes tenho uma raiva à minha Otília, eu magro tao magro que estava e ela nunca mo disse. Só um dia destes em que estava no banho, é que percebi que os ossos dos ombros faziam força para sair e a pele estava mesmo quase a ceder. Eu não ia dizer-te que estavas muito magro, não podia.
Não quero ambulâncias à minha porta, já disse. Lá em casa tenho uma caçadeira. Sou uma pessoa pacífica, não é para fazer mal a ninguém. É mais para me defender.
E eu juro que se ambulâncias à minha porta, eu faço uma loucura.

O campo deu-me tudo. E matou-me a fome. Fui explorado.
Em tempos tive de sair de noite e ir roubar favas e batatas. E não era para vender. Era para comer.
Hoje, enfiar a enxada na terra, ver a chuva cair, arrancar as ervas daninhas, é tudo o que sei fazer. Seria triste não seria? Ver os meus vizinhos a chegarem com sacos de plástico cheios de hortaliça para a Otília fazer sopa.
Era bonito, mas era triste. Não há nada com as batatas da minha terra.

sexta-feira, 30 de março de 2007

inesquecida da carne
rasgo na água um caminho puro,
na concentração certa
de saliva da minha boca
invisível

o amanhã de amanhã
é quando me solto da alma, e as razões amadurecem
túrgidas mas vulgares
seres de pele
sobre pele
sobre todas as variedades
de loucura
que existe

os
amantes dos mortos
permanecem
de pé e de mãos atadas como pássaros que não
descansam os olhos

os sentimentos que me levam
têm o sopro da cal

o
barulho rente ao alto mar
sou eu a sonhar
que voo

roubo aos barcos finitos
os homens que não têm dentro
o saber dos homens do mar

digo eu, a reflectir a dor por detrás do sangue
Posso fugir?
tudo para acreditar mesmo
e jogar fora a religião ferrugenta

horizontes de adeus
pôr do sol na madrugada
tanta sede
quando chega prostituta
a hora de adivinhar a dedicação dos monstros

porque é no princípio do peito que as coisas se sabem

o veneno anoitece de luz
apago a ordem da estações
das linhas
de comboios
que não apanhei

o que se consegue é um esquecimento dormente
de que no fim é a morte.

mais difícil
é ser um homem do mar
permanecendo na terra

quinta-feira, 29 de março de 2007

raparigas e respectivas armas

Tudo o que é preciso para fazer um filme é uma arma e uma rapariga

Jean-Luc Godard



a Joana e uma pedra
a Rita e as baquetas da bateria
a mulher polícia e o cassetete
a prostituta e os seus olhos verdes
a Maria e um canivete suiço
a prima da Inês e a sua gravata
eu só existo afinal pelo facto de estar a conversar com alguém


Príncipe de Hochgobernitz, in Perturbação de Thomas Bernhard

quarta-feira, 28 de março de 2007

Uni-vos Bichos de Estimação

Chorrilho diário de insultos dirigidos a uma cadela chegam-me pela janela. Uma vizinha com voz de velha insuportável, ofende, com pequenas pausas, um animal que não vejo mas que imagino também velho, incontinente de esfíncteres, sedento de festas e com um cheiro nauseabundo a cão cansado.


Hoje foi assim a missa das 17:

Que grande merda palavra de honra. Já não tem por onde se lhe pegue. Cadela porca. Estafermo de bicho. Tá quieta pá. Sai daí Lady sai daí. Desaparece do pé de mim, eu já nem te vejo. Só fazes é mal. Vai emboraa, vai embora.


Peguei num livro chamado o frio que faz na cama

Imaginei-me velha assim.


Os nomes de livros são entidades abstractas. Metáforas. Longas como longos braços de árvores de inverno. O frio que faz na cama. É uma boa metáfora. Não é preciso ser noite. Não é preciso ser inverno. Pois não. São as franjas, as franjas da poltrona avermelhada de veludo muito gasto que me chamam a atenção e as mãos dos homens todos que passaram pelo meu corpo a brincar. Já não tenho idade. A brincar as mãos são frias e os olhos nas horas escorrem ao contrário é de noite e depois de tarde e depois de manhã. Já aconteceu que tivesse saído para a rua para não voltar. Para não dormir. Sozinha. Os vizinhos que me olham de soslaio e me deixam o elevador sem espelhos para que me não recuse com o fundo da alma o minha boca apagada. Pontualíssimo. Aconteceu-me de repente que já não tenho idade para brincar. Duvido principalmente dos homens bonitos. Dos homens altos e elegantes. E simpáticos. São quase estatuetas decorativas à escala real.

Kms ilimitados???

Onde posso ir quando escrevo. Até onde? Por que estrada?

O sítio onde se chega quando se escreve é ermo e sou tão suja na forma como o faço, em todos os rituais físicos antes de me entregar à derradeira tarefa da escrita.

Por mim escreveria para sempre como uma bola que desliza numa superfície sem atrito. Sem parar, sem respirar, amando na escrita, vivendo para ela.

E há a música sentimental que a motiva, as vivências.

Muitas pessoas. Sempre sempre a acontecer-nos. Sempre sempre a mudar a nossa direcção, ao modo de condições climatéricas, de incontornáveis que são. Fazendo-nos escolher um casaco mais quente ou uma blusa mais fina. Convidando-nos a sair de guarda-chuva.

E quem somos nós, afinal, no meio de tanta gente, depois de tanta gente, antes de tanta gente. Gente que nos toca. Gente com quem não trocamos palavras sérias. Gente infeliz ou metendo cunhas para o deixar de ser. Gente a quem dizemos palavras que não pretendíamos e que, apesar de tudo nos escaparam. Nunca nos esquecemos dessas pessoas.

O que temos para dizer enquanto seres humanos? Numa dimensão pessoal e colectiva?
Será o que temos para dizer é substancialmente diferente nessas duas dimensões?



the noise

too much noise in our lifes

such as politics


respigado da colheita de janeiro

Durmo todos os dias em sítios diferentes da casa. Ora no chão, ora suspensa. No quarto ou na marquise. Na cozinha. E todas as noites os sonhos são diferentes. Em cor, em peso, em distância e em lugar.

Esta noite convoquei alguém do passado.

Acordei perturbada, enrolada no tapete do hall de entrada.

Éramos felizes. Havia um elevador antigo. Uma luz baixa sobre as nossas figuras. Dávamos as mãos. Sexo inconsequente.

Os olhos dele estavam cheios de claridade.

Depois acordei para a sinfonia da existência. À previsão de cada nota, à inevitabilidade dos compassos e da ordem das explosões épicas.

À impossibilidade do tempo se fazer em terra redonda onde de todos os pontos de partida se poderia chegar a todos os lugares.

Fossem desertos gelados, mares, cidades.

Ou terras cálidas.

domingo, 25 de março de 2007

o louco e os livros

uma tenda cheia de livros. praça da figueira. 6 da tarde.

um senhor de meia idade, com um ar desprendido do mundo, atravessa a praça em direcção a esse paraíso. hipnotizado.
na mão direita carrega um saco desportivo aparentemente sem volume, portanto quase vazio.
aproxima-se da tenda como uma criança corre para o mar no primeiro dia de praia do ano.
espreita muito sério e de olhos bem abertos através das janelinhas de plástico.
Tantosss livros!
sorri em voz alta.
pergunta-me se sei onde é a entrada da feira.

quarta-feira, 21 de março de 2007

equinócio

a sua sombra
de ave negra, plana
no fim do dia

na primavera
os telhados as vozes
incham de água

quanto tempo é?
para trincarmos maçãs
que vêm com a maré?

flores de terra
luz entra pelos olhos
há-de vir o amor

segunda-feira, 19 de março de 2007

origem

poucos segundos de sol restam
para olhar a terra a partir da terra

o mar
que só vê mulheres muito nuas nas suas franjas
(anjos em dias festivos)
é cego e perfeito.

a consequêcia de começar a
vi ver
nasce das ondas invernosas
brancas brancas
ao serem depositadas
exangues e orfãs
nos bancos de areia

mutismo

por essa razão não somos irmãos
o olho esquerdo o direito e eu
são como câmaras obedientes e
esféricas
principalmente à noite.

são mesmo de verdades,
os meus olhos.

de mentira sou eu,
um balão de nada comprimido

são mesmo de verdade
os meus olhos.

este é um poema que não pode falar.
ninguém me iria crer.

domingo, 18 de março de 2007

avenida da senhora liberdade

quinta-feira, 15 de março de 2007

jardim das desconversações (torel)

desconversações

Desconversar.
Neste jardim.
Descoversar muito, até o peito me doer.
Não dizer mesmo nada.
Ficar com a cara de quem pensa em ti. A roubar os horizontes à paisagem.
Uma expressão que nada reflecte para suspender o silêncio.
Eu não queria dizer isto.
Que há vagar e há frio.
O sol pôs-se. Justamente atrás da árvore mais velha do jardim.
As pessoas que durante a tarde povoaram a sombra das árvores e o relvado quente foram-se retirando.
Um casal velho. Um rapaz que ria. Um casal novo cheio de beijos para dar. Uma mãe e crianças depois da escola. Uma banda com um contrabaixo.
Podemos dançar mãe??? Deixa-nos dançar um bocadinho!
Está bem, mas rápido que ainda temos de ir buscar o Estevão.

Deslizaram para fora da moldura.
Eu fiquei. Sem testemunhas.
A desconversar para melros e canções de vento e para um homem que de uma janela chamava a Patríciiiiiiiiaaaaaaa
mas para todos os efeitos não conta como testemunha porque estava um bocado longe.
Desconversei tudo.
Tudo.
Quando passou uma hora sobre a partida da última alma do jardim, tendo esgotado todas as desconversações, também eu parti.
Exausta.

A espera

"Estava tão apaixonado que se fechou em casa, sentado junto à porta, para poder abraçá-la assim que ela batesse para lhe vir confessar que também o amava.
Mas ela não veio e ele envelheceu. Um dia alguém tocou, levemente, à porta e ele, apavorado, fugiu, escondendo-se atrás do armário."

Tonino Guerra

terça-feira, 13 de março de 2007

etna


foi em maio. maio passado.
que me deixaste esta fotografia no email.
para que lhe pudesse tecer uma versão.
se bem me lembro era isso.










....
o mundo não é um lugar diferente do que já foi.
há retóricas que se reciclam.
crianças.

o essencial, que é o estar nos sítios só podendo vestir um corpo de cada vez, permanece.
quando se é criança é-se. e não se pode ser mais nada ao mesmo tempo.


mãeee
aquela montanha cospe fogo?
cospe, mas não é fogo, são castanhas.
o que é que é castanho mãe?
é o fruto. de que se alimentavam as famílias pobres.
tu dizes que nós somos pobres. porque é que não comemos daquilo?
porque há peixe cozido. com bróculos.
eu quero saber ao que sabem. as castanhas.
depois não jantas.
janto sim. quero uma castanha. quero ver a montanha a cuspir.

segunda-feira, 12 de março de 2007





escureceu aqui

"the dreamers"

diz
que é uma imagem

uma margem só de corpos
alinhados
alinhavados
uns nos outros

muitos corpos
sentidos a sério

rasgados abertos
rios
fogem
desse centro
fonte

corpos esses não ficam secos
existem numa voz própria
esta vez e amanhã e depois das viagens
cantam
o original
vagar do
orgasmo

(mesmo antes de nascerem
os corpos segredavam-no)

é deus
a água

é deus
quem sabe
palavrar o silêncio
dolente

é deus
rios que chegam
ao vales de pedra

soprados
os rios lívidos
não param de chegar

ao encontro
marcado

domingo, 11 de março de 2007

cat the second (rua do carrião)

geologias

tanta vida naqueles olhos. naqueles olhos de um minério qualquer sem nome. os olhos com tanta vida que os gestos os passos os líquidos se evaporam, ficam a meio caminho da minha percepção. olham de um rosto quase anónimo. esses olhos cor e consistência de um minério raro para que eu lhe saiba o nome. minério-espelho. a vida dos meus amigos a acontecer dentro desses olhos, as minhas orações a poucos deuses, quando vou às compras, quando volto para trás porque não é aquela a rua por onde quero ir, quando choro em lavandarias (como se nesses sítios não existe já água suficiente) tudo, tudo. quando falei a primeira vez e quando direi a última palavra.
vejo de tudo, um pouco.
nesses olhos de minério-espelho.

sábado, 10 de março de 2007

Cat the first

fungos por amor

há uns anos, remexendo nos livros de escola da minha mãe, encontrei um bilhetinho encarquilhado.
não reconheci a caligrafia, que perguntava, num traço muito miúdo

comerias por mim cogumelos venosos?
encontramo-nos amanhã, às quatro da tarde?

traz contigo uma resposta.

não resisti a perguntar-lhe de onde vinha aquilo.
o seu namoradinho dos 12 anos.
reproduzindo uma jura de amor com fungos à mistura que tinha visto na televisão.
Uma Casa na Pradaria ou uma série do género.

e tu mãe que lhe disseste?

que sim, claro.
mas sabia que nunca comeria cogumelos venenosos nenhuns, na hora da verdade.



quarta-feira, 7 de março de 2007

vários medos de crescer

quando era pequena tinha vários medos de crescer

que me caissem os dentes todos de uma vez

tinha medo de ficar da altura do Mário e
de bater com a cabeça no céu

tinha medo que a cama deixasse de me servir

e tinha medo de polícias e lobos à paisana

explicações

abri essa porta
para
escancarar
a rua

os dias de vento não cabem nessa solidão
que vi
seria preciso um bolso maior
onde se pudesse acamar a terra
de cinco continentes e ainda
de
um sexto
que está por descobrir
atrás do
sol

abri essa porta
para
abreviar
as escrituras

gritar salmos
chorar picando alhos
tomar café com bruxas

abri essa porta
para
a deixar
aberta

terça-feira, 6 de março de 2007

aguaceiros nas regiões altas


choviam pedras
quando numa noite
uma mulher que nunca mais acaba
saiu à rua

os braços em forma de céu,
acabando por não acabar
em abismos desmaiados
no peito de homens

dizem que essa mulher sem morte não (a) tem
nome

chorava uma dor de paz
estórias pequenas
e arrumadas que lia de cor
a sua voz lisa

entre meteoros
de fúria
dormente
avançava

há quem diga que é difícil contar as
horas pelos seus dedos

nessa noite
o tempo já passou

porque no seu corpo
o tempo está sempre
muito perto do princípio

do medo
ninguém sabe o paradeiro
à mulher
nunca ninguém lhe ouviu
a morte



Dog the first

Enquanto espera, leia Cesariny

Saiu furado

Tinha desejado assim ser. Recusada. Mansa.
Pensei que poderia ter tudo nada tendo.
Pondo o amor entre aspas, procurando vidas onde me pudesse encaixar e voar delas para fora ao final de cada dia.
Como o teatro.
Pensei que viesse a ser poeticamente dramático.
Anterior à água. E ao ar. E aos beijos.
Até vago.
E o pior amor é o que não sai da gente.
Em proporções multiplica-se por mil, e na tontura o céu quase que se desequilibra em cima dos telhados e nos deixa para sempre na noite.