sábado, 21 de abril de 2007

Old Joy


A minha segunda tentativa Indie 2007, desta vez feliz e acordada. Old Joy de Kelly Reichardt. O menino que está debaixo do saco de campismo é mesmo o Will Oldham, cantautor de matiz folk.
São dois velhos amigos que já não se vêm assim tanto (um deles já é quase pai e o outro teima em não crescer) seguem viagem rumo às Cascade Mountains, em Oregon. Procuram uma nascente de água quente. Sem o saber ou querer procuram quem foram, quem são e onde vão. Uma busca espiritual que dura um fim-de-semana. Old Joy é a alegria nostálgica do encontro, a constatação de que a cumplicidade não se esgota, nem acaba, mas antes sofre o poder transformador do tempo.
Tão concentrados que andamos na conceptualização de maniqueísmos, surpreendemo-nos com a dica da personagem de Will: Sorrow is nothing but worn out joy.
A tristeza não é assim tão contrária à alegria. É filha dela.


tudo por um pão mal-cozido

a sofia vive em barcelona.
voltar vai custar-me confidenciava-me.
a mulher da padaria já sabe o pão que eu gosto... é daquele branquinho...

férias com os cavalos

tenho uma amiga. uma amiga que se ocupa com a maternidade. está em casa, vai buscar o filho à escola e faz-lhe companhia a ver os simpsons. e espera. pelas férias e pelo sol para ir para a praia. o marido gosta de cavalos. o dinheiro que faz com a loja que têm nesse país estrangeiro destina-se aos cavalos dele e às férias dela. ela não percebe os cavalos assim como ele não percebe a areia quente e os pés inchados e a dificuldade em estacionar.
nestas férias, por causa da chuva, a rita adiou a ida à praia. ficou com os cavalos. a penteá-los. a conversar com eles. lembrou-se de ir buscar o rádio antigo de cassetes e de pôr a tocar uns tangos roufenhos.
as férias acabaram. e os cavalos têm saudades de ouvir tocar o pequeno rádio.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

rosa dos ventos

a imaginação de coisas vivas e brancas
como numa noite de festa
onde vamos?

há na existência da espessura
das pessoas como eles
uma verdade e cavalos suspensos
uma verdade substantiva e um céu precipício

até ao fim dos beijos
de papel
escrevem-se monólogos
e depois
queimamo-los vivos

quantos pontos cardeais há no reflexo
branco
da pele frágil dos teus lábios?

posso rumar a norte
e achar a loucura
um milagre fantasma onde as ondas chegam nuas e
aos pares

a loucura tansforma-me num doce ser de cabeceira

a sul,
a consequência de amar a água
a água que caminha e pinga
que pinga
em terras de seca e não se sabe

um velho de cabelos longos promete-me
que o futuro são árvores altas
e o peito com que respiram

a este
o sol
com ninguém
e nada lá dentro
sacode os seres do ar para sempre
até à noite do outro século

a oeste
já ouvi um homem a barulhar o vento

quarta-feira, 18 de abril de 2007

sonos em dia

não te dês ao sono
estou a pedir-te que não morras

não te emprestes ao sono
estou apenas a pedir-te que não adormeças

segunda-feira, 9 de abril de 2007

era uma vez alguém que nasceu. podia ser um rapaz. esse rapaz cresceu. e a sua missão era lembrar todos os hábitos da humanidade. primeiro os instintos, depois reencontrou as maneiras infinitas de explorar a natureza e as artes da guerra e de alguma paz nos intervalos. reaprendeu a amar, a esquecer e a ter alguns filhos. depois passou o resto da vida tentando deslembrar-se e ser mais vivo. esquecendo-se de uma coisa por dia, chegou a um ponto em que era um rapaz. parecido com o rapaz que tinha nascido. quando esqueceu todos os hábitos da humanidade tinha-se transformado numa rocha da praia que viveu para sempre.

terça-feira, 3 de abril de 2007

vidas para embalar

como um ritual. todas as noites.
neve. faça muito frio. calor.
apesar de ainda não ter vivido nesta casa dias que queimem, em que o vento seja uma lembrança de outros tempos. sei que será igual.
os homens não voavam antes de Newton ter baptizado a gravidade.
igual à água. que já era húmida antes de se chorar. antes de se nascer.
ponho-me à janela. falando com esse corpo do céu, a mãe da noite que tudo escurece para poder ser bebida com solidão.
é que eu consolo-a.
para que não sinta tanto a distância.
contando-lhe histórias.
dos filhos todos da terra.
todas as noites.
me encontro com
a lua de verdade.

Inauguração

A lua está de sentinela, a caminho do alto céu (se alto mar existe, alto céu também se pode dizer).
O jardim do Torel acontece em baixo, com as suas árvores.
Hoje brindámos ao meu quarto com Real Lavrador e comemos tostas com doce de castanha e baunilha.
Falámos de teatro. Do que há-de ser o Alfredo do gato.
Quem sabe se um homem que experimenta várias mortes até se ficar pela que mais lhe agrada.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Lá na terra

Lá na terra tenho uma horta. A esta altura a horta já está morta. As batatas estão podres, porque ninguém as apanha. Quando eu sair daqui, deste hospital, volto à terra.

Às vezes tenho uma raiva à minha Otília, eu magro tao magro que estava e ela nunca mo disse. Só um dia destes em que estava no banho, é que percebi que os ossos dos ombros faziam força para sair e a pele estava mesmo quase a ceder. Eu não ia dizer-te que estavas muito magro, não podia.
Não quero ambulâncias à minha porta, já disse. Lá em casa tenho uma caçadeira. Sou uma pessoa pacífica, não é para fazer mal a ninguém. É mais para me defender.
E eu juro que se ambulâncias à minha porta, eu faço uma loucura.

O campo deu-me tudo. E matou-me a fome. Fui explorado.
Em tempos tive de sair de noite e ir roubar favas e batatas. E não era para vender. Era para comer.
Hoje, enfiar a enxada na terra, ver a chuva cair, arrancar as ervas daninhas, é tudo o que sei fazer. Seria triste não seria? Ver os meus vizinhos a chegarem com sacos de plástico cheios de hortaliça para a Otília fazer sopa.
Era bonito, mas era triste. Não há nada com as batatas da minha terra.