quarta-feira, 30 de maio de 2007

É um post de chegada. Acabei de chegar. Acabei de partir. Trouxe comigo coisas que levei quando parti. Touxe comigo coisas que me enviaram quando estava longe. Acabei de reencontrar. Pessoas muito longas e quentes. E conversas inconsequentes e fumadas. Amizades-amor. Espaços preenchidos e mãos que nos agarram sem maldade para ficarmos mais um pouco. Enchi a mala de livros para me enganar as saudades que vou sentir. As palavras que trouxe chegarariam até à próxima viagem se as saudades fossem ingénuas, mas são meninas espertas. Usam o truque do silêncio e a fidelidade da presença.
Também sei que essa cidade não pode ser definitiva. Lisboa não é espaço definitivo por esse sentimento português de incrustada expectativa de implosão nacional. Por outro lado, não desejaremos morrer em Londres, porque a alma da cidade é uma fera ferida que sonha com o silêncio absoluto do fundo do rio. Rimos estranhamente alto, mas não somos pessoas de incomodar. Há outros lugares no mundo.

terça-feira, 22 de maio de 2007

Poemacto

Criar é delicado.
Criar é uma grande brutalidade.


(Herberto Helder)

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Há quanto tempo

Descia pelo passeio público quando o vi. Foi a sua esqualidez e o tamanho das suas barbas que me fizeram parar em si o olhar. O meu ângulo de visão não me permitia ver onde focava a atenção, só sei que a sua expressão era muito atenta, quase deslumbrada e solene. Pensei que pudesse ser uma borboleta rara que o homem contemplava. Daquelas com asas grandes e cores luminosas. Fui-me aproximando. Um sorriso acendeu-se naquela barba encardida. Como um segredo de criança que se revela.
Leva uma mão à barba e faz cócegas no queixo.
Uns passos depois descobri que se via reflectido no vidro de uma montra.
Estava dolorosamente feliz por se reencontrar.

domingo, 6 de maio de 2007

Conversations with an angel 2




If you are an agel, why don´t you fly?

The fuel is over.

Deixo esta cidade 1

Deixo esta cidade à medida que a luz diminui de intensidade na pressa de morrer. O dia foi demasiado comprido. Há um tempo ouvi na televisão, uma centenária senhora que quando questionada sobre o próximo aniversário, respondeu que era tempo de morrer, que já tinha vivido demais. Tanto tempo que se lembrava de duas guerras e da morte de filhos e netos.
O dia de hoje foi uma centenária senhora. Noite vem depressa.

Conversations with an angel 1



Angel, how do you get there?

By tube.

Diz-me como amas dir-te-ei como escreves

Antes de ser quem sou, este ser de ossos e lembranças concretas como árvores, sabia explicar o que se passava comigo e com os outros, muito melhor do que agora. Com facilidade falava de processos naturais, desde o vôo das abelhas ou do acontecimento da concepção como se se tratasse do processo de pensar, partindo de premissas, ascendendo numa febre primordial e concentrada até atingir o calor confortável de uma conclusão ou a satisfação temporária de não a conseguir atingir.
Dantes era assim, escolhia melhor todas as palavras e estas tinham realmente um brilho incomum. Um brilho nocturno. Agora estou sempre a começar histórias que não acabo, como se tivesse problemas de memória e empilhar passos da narrativa fosse tarefa hercúlea. Talvez me foque em pormenores como olhares, palavras soltas ou sons marginais e não quero mais nada com o devir.
Percebi que nunca recusei nenhum amor e que ultimamente tenho sentido demais. Isso faz mao ao que escrevo. Há que recusar amores de vez em quando para tornar mais puros aqueles que escolhemos viver. Não de uma forma intencional, claro. Por declinação delicada e intuitiva. O objectivo é fazer brotar uma fonte ígnea de credibilidade, de profundidade. Essa será a prova de que o sujeito que escreve está inclinado sobre a matéria sobre a qual pensa e se alheia propositadamente de muitas outras coisas que se passam à sua volta.
Simultaneamente e em retrospectiva, o sujeito passa a apresentar uma consciência de ter sido negligente com o mundo, por estar concentrado num certo assunto e desconcentrado de outros. Continua a ser alheio ao mundo presente, sem no entanto ter essa consciência. Não o podemos chamar de inconsciente, mas dizer que a consciência sofre um delay.
É uma consciência atrasada da culpa que dá seriedade ao que se escreve.
Pode escolher-se pacificamente não ir ver aquele concerto ou não ir almoçar aquele amigo, mas não viver certas possibilidade de amor que se nos oferecem não é assim tão pacífico. Recusar essas possibilidades é sempre desperdiçar tentativas de se ficar emocionalmente mais completo.
Ora, só à posteriori é que o próprio reconhece estas recusas, conciencializando-se delas com um atraso.
Não há ninguém que dependa tanto desta culpa como o sujeito que escreve. O sujeito que escreve precisa de sentir que é o homem do leme, mesmo sabendo que não há nada mais ilusório do que isso.
A necessidade de amor não pode ser superior à vontade de o viver.
O que escreve deverá ser, principalmente, um reactor de vontades e não um escravo de carências.